terça-feira, 7 de dezembro de 2010

moldura

Enfim, aprendo. A conviver sem, a viver com: comigo. Com o escuro, com a ausência, com a falta de ruídos que às vezes ouço. Posso ver as estrelas com menos pressa e escutar com menos certezas os sons da noite. Posso sonhar acordada e despertar de um sonho, tudo da minha janela.

Nesta noite descobri que aqui também existe serenidade. No meu quarto em silêncio. Ou nas luzes que piscam do outro lado.

No vazio, reconheço a minha alma.
Livre.
Plena.
Imensa.

Sem respostas.

É quando pergunto e respondo para mim mesma.

É quando vivo.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

de volta

para escrever
não preciso de estilo
mas de palavras

para chorar
não faz falta o motivo
se tenho lágrimas

para lembrar
não existe saudade
só detalhe

para sonhar
não preciso do escuro
basta

fechar os olhos

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

terça-feira, 9 de novembro de 2010

da janela

Daqui, assisto a um filme. De frente, do melhor ângulo para enxergar as mesmas ações que, no cinema, exigem um lugar especial. Lá fora, as luzes começam a se apagar, como na sala escura. Está anoitecendo e, do outro lado, os dois se sentam à mesa. Como sempre. Não ouço as falas, é um filme mudo. Eles jantam juntos. Ela atende ao telefone sem fio, à mesa, o cenário permanente. Ele se levanta, toma o remédio de sempre em frente ao relógio que, agora, marca sete e quarenta. Hoje ela não corrige as provas. Ele não lê o jornal. Hoje a noite é diferente. E igual.
Ela embaralha, dá as cartas. O jogo começa. E, com ele, o meu filme das sete. Um seriado. Ele compra, descarta. Ela compra, descarta. Um silêncio de falas e de gestos, calados, iguais. O tempo passa. Eu acompanho, sem me concentrar. O olhar, distraído. Perdido entre tantos outros canais, que piscam, como a TV.
Já são oito e vinte.
Ele espera. Compra. Perde mais alguns segundos ponderando. Então descarta. É quando vejo que ela já tem dois ou três jogos baixados. Que se dispõem, folgados, na mesa de seis lugares. Agora sem filhos, sem rotina ou trabalho. Os netos, só vêm às vezes. Mesa que ficou imensa para os dois. Mesa que já foi pequena, e sobre a qual hoje jogam, todas as noites. Juntos. Para entreter a ausência. Porque a vida segue.
Perdi um lance, alguém bateu. Fico sem saber quem. Ele embaralha, novo jogo. Porque agora já não importa ganhar ou perder. Porque a rotina precisa se distrair. Porque o tempo passa e, com ele, passa o mesmo. E o novo precisa nascer, todas as manhãs.
Todas as noites.
A que eu assisto, de perto. Bem perto.

domingo, 17 de outubro de 2010

além de munch

(Não sei de onde espero as palavras certas para interromper, de vez, o meu silêncio. Um silêncio que me exige fôlego, para não sufocar. Mas que ao mesmo tempo sente pena dos que falam. Porque aqui dentro só há espaço para a melodia muda. Essa que dançam loucamente a inércia e o vazio. Doce par que procura dançar para esquecer. E que - ainda que sem ritmo - esquece)

sábado, 11 de setembro de 2010

para quem entende

Hoje prefiro ficar com aquilo que eu não sei dizer.

Enfim reconhecer que as palavras nunca sabem o quanto pesam. Mesmo que eu grite ou sussurre/chore ou sorria, com toda a minha alma.
(...)

Ainda assim, só ouço o silêncio:
- Uma falta de sons que canta na minha cabeça.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

dívidas e deveres

Eu sei que devia insistir em ouvir, mesmo aquilo que me contamina. Devia estar bem informada sobre feitos e atrocidades. Devia saber os nomes dos mais importantes, dos que desfilam na TV e nos jornais. Devia acompanhar tudo o que está na rede para ser seguido/lido/rido. Devia fingir entender política, consciência social - e depois rir do que é (mal) feito. Devia escrever bem, falar melhor, sonhar cada dia menos. Executar os planos, sacrificar a vontade de simplesmente sentir o vento no rosto. Devia fazer, medir, contar, perder. E ganhar meu nome em alguma capa em preto e branco. Eu sei, sim, que eu devia servir e aceitar. Devia não ter desejos, para não atrapalhar os planos que se impuseram a mim no segundo em que me distraí. Devia ignorar que há pessoas, aqui do lado, que sequer comem, sonham, vivem... Aliás, devia esquecer que viver vai além. Esquecer que o dia nasce todas as manhãs, e torná-lo, de uma vez por todas, qualquer coisa indiferente. Devia descartar o que não presta, não encher as gavetas de papel, esvaziar a alma de dores. Devia ser outra, mais interessada, menos interessante. Mais igual no que padroniza. Mais diferente no que não importa. Mais superficial, menos sensível. Menos louca e muito, muito mais descrente.

Sei que devia ser assim. Para, quem sabe um dia, fazer parte desse mundo.

domingo, 29 de agosto de 2010

segundo capítulo

Eu não espero mais de mim. Não me cobro mais sonhos, verdades nem lembranças. Não imponho limites, não faço contas nem listas. Apenas sigo sem as velhas pretensões que – só hoje posso ver – nunca foram minhas.
Daqui de cima (ou de baixo), assisto ao meu próprio passeio: sem o peso nas costas, sem a obrigação de estar sempre em pé, sem as respostas na ponta da língua.
Porque agora o destino é adiante. Inevitavelmente para frente, porque o passado não me faria o favor de voltar. E é com os pés exaustos de cumprir e exercer que espero chegar.
Ou, simplesmente, continuar seguindo.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

ela

Ela queria não saber para onde ir. E vagar, sem rumo, pelos próprios sonhos. Ela queria não ter as certezas que hoje gritam enquanto dorme, nem as dúvidas que silenciam enquanto está acordada. Talvez ainda tenha que reviver algumas histórias e descartar outras. Ou simplesmente escolher as dores e alegrias daqui para frente.

O espelho lhe diz que cresceu depressa. As paredes, que se esqueceu de pintá-las. Nos armários, uma vida que já não é tão sua. Na mochila, tudo o que deve ser feito, pensado, dito e vivido. Da janela, rotinas que se esbarram. Na TV, como continuar escondendo-se de si mesma.

Na gaveta, dezenas de sonhos enlatados, à espera do dia perfeito. Sobre eles, livros, horários e vazios.

Sonhos que se roubaram enquanto ela se perdia no tempo.

O mesmo tempo que a roubou.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

outra saudade

antes havia inspiração
em tudo
no vazio, no nada
na respiração

mas eu sei que agora não há mais o que implora. não há mais nada que exija palavras tão secas como as (que um dia foram) minhas. nem tão suaves como eu. agora eu não sinto mais sufocar o silêncio. sequer consigo ouvir os gritos. não preciso escrever e sentir, porque não há mais em mim aquela dor de dizer. nem de ser ouvida.

(eu, que já guardei tantos soluços debaixo do travesseiro - umas lágrimas feitas de pó. eu, que tive amor de graça e abraços para emprestar. que preferia sonhar acordada e inventar minhas próprias falas - uns diálogos mal feitos que nunca pensei encenar...

foi quando sonhei de olhos fechados
e aprendi a improvisar
um improviso borrado, cansado
que eu chamei inspiração)

depois, já se sabe: só restou uma flor. uma tal serenidade. aquela paz que eu quis cantar para nós dois: agora, nossa melodia.

porque, no fundo, eu sempre acreditei que aquela dor aflita logo se despediria.

o que não imaginava
é que a minha poesia
sentiria falta dela

terça-feira, 27 de julho de 2010

um ponto a mais

Algo me diz que é tempo de ligar os pontos. Esses (justamente esses) que eu ainda não desenhei - porque esperava. É que talvez um quebra-cabeça tenha se encaixado do outro lado do mundo. No mesmo dia em que encontrei - sem querer, dentro de mim - o tal espelho que reflete rachaduras e sorrisos.

Sim, há muito de especial nessa imagem que é tão minha. Há todas as respostas e todos os segredos. E uma vontade de deixar alguns degraus para trás: enquanto do chão recolho os sonhos, ao céu lanço as minhas preces.

Um ponto e outro, e posso ver que foi fácil esperar. Exigir e cobrar.

Difícil será entender que nem todo abraço chega na hora que parece certa. Que nem todo conselho previne. Que alguns sonhos não levam às nuvens. Que amizades são e vão. Que as conquistas se despedem. Que a saudade revisita.

Que a rotina pode ser doce. Que os pais podem ser filhos. Que os inimigos podem ser justos.

Que cobrar é se frustrar. E expectativas nem sempre são fruto da espera...

Difícil será aprender que reaprender é difícil.

Mas pode ser tão fácil, que eu escolhi esperar.

domingo, 11 de julho de 2010

a-g-o-r-a

E agora que tudo volta a se encaixar, sem as voltas, sem as dores, sem as lágrimas... Agora que eu vejo o mundo de uma lente limpa demais, às vezes até esverdeada... Agora que eu te entendo mais que ontem, que vejo que cresci (e que crescer é assim mesmo)...

Agora que eu não tenho mais medo de olhar e não enxergar nada, que os erros soam como um passo qualquer, e os acertos como a única escolha... Agora que perdi minhas mágoas, redescobri meus sorrisos, pintei a casa de rosa, deitei na grama para ver as estrelas, senti o vento no rosto, a água nos pés, sonhei com a infância, senti saudades e soube abrir os olhos...

Agora que é da minha janela que eu vejo TV, conserto as dores do mundo e volto a crer nas pessoas... Agora que eu sinto além, que durmo sem travesseiro, que acordo mais cedo e espero o sol nascer... Agora que eu sei voar, cozinhar, escutar e amar...

Sim, é justamente agora que há mais estrelas na terra do que no céu. Eu sei que estou sem tempo de olhá-lo e que as nuvens atrapalham. Mas as daqui, posso vê-las sem me esforçar. Porque brilham. E, é claro, agora tudo brilha mais que antes. É que agora o mundo voltou a girar no único ritmo que eu sei dançar. Finalmente, ele se cansou de gritar e exigir mais pernas e braços e olhos e senso. Agora ele embala sem força, abraça e escuta. Ainda não sei quem nem por que.

Mas o que sei é que agora sinto as minhas pernas. E posso seguir, sem inconstância.
Não é que o mundo tenha parado para me esperar. Nem para me ouvir.
O tempo agora corre ainda mais depressa - e faltam ponteiros precisos.
Mas agora é agora porque desaprendi a contar as horas, esqueci como me deixar acorrentar.
Agora é agora porque aprendi a soletrar o tempo.

Foi então que desembrulhei minhas asas
- e só me restou voar.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

colorindo

...porque talvez eu tenha aprendido a ver todas as cores.
Cores de vida.
Da noite. Da falta. Do abraço.
Do sorriso. Do cansaço.
Do detalhe.
As cores do medo de fechar os olhos
e esquecer que além do cinza existe - e persiste - a nuance perfeita.

Talvez compreendê-la tenha me dado asas - e pernas.
É que simplesmente seguir exige também novos passos.
E, para sempre, velhos sonhos.

***
Colorir é reconhecer os tons e o brilho de um talvez, ou de um quem sabe - que sabe.
É deixar-se adormecer quando o mundo inteiro vibra, e enlouquecer quando o mundo quer a paz.
É reaprender a falar em silêncio,
e então ouvi-lo.

É redescobrir-se criança
e afinal compreender que, para ver além,
não existe outro caminho.

sábado, 19 de junho de 2010

além do arco-íris

Acordei e tinha superpoderes. Voava mais que o céu e brincava de beijar as estrelas.
Eu podia estar aqui e lá ao mesmo tempo.
Eu sabia ler pensamentos, colar pedaços partidos.
Compreendia meus inimigos, e as lágrimas só caíam quando era preciso regar o jardim.
Nada desperdiçado.
Eu unia pessoas distantes, selava amizades, desfazia mal-entendidos.
Podia consertar qualquer erro do mundo, reparar qualquer defeito.
Meus olhos podiam ver de tudo, e da minha boca só saía o que se devia dizer - e ouvir.
Cada passo para frente, cada pedra, uma flor.
Eu sabia que bastava tocar - e o mundo ficava encantado.
Sim, eu podia curar.
Curar o mundo da sua dor.
E da minha.
Eu podia - e devia - transformá-lo num céu estrelado - fizesse chuva ou sol.

Mas anoiteceu, e adormeci.
Quando despertei, era novo dia, e as estrelas estavam de novo distantes.
Eu só podia estar aqui, porque lá ficara muito longe.
Meus pedaços se partiram, e eu sofri.
Minhas lágrimas enchiam o mar, os inimigos sorriam.
Tudo desperdiçado.
Eu dividia, distorcia: estava de novo cega.
Cada passo, em falso. Cada flor, uma pedra.

Mal sabia que bastava tocar
- e tocar era tão simples -
para viver, para sempre, um sonho.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

a saudade que eu sinto

O tempo me roubou.

Ontem não era quarta. Mas segunda. Eu voltava de ônibus, lendo. Lia para não perder tempo. Meus olhos se fechavam, mas no meu sonho cabiam todas as páginas. Não arriscaria me perder.

Ontem era semana passada. Eu fotografava o céu, o mar. Registrava tudo para não perder nada. Cada disparo diminuía o meu medo de deixar passar.

Ontem eu fazia 15 anos. Eu corria e o mundo passava, depressa, mas a mim pouco importava se o relógio marcava dez ou meio-dia.

Ontem eu jogava bola na rua. Brincava, pulava e era a liberdade que me protegia quando eu tinha medo do escuro.

Ontem eu aprendia a andar de bicicleta. Eu caía, mas logo levantava, sem me preocupar de quantos tombos precisaria para aprender. Sem pressa, sem medo de errar.

Ontem não havia o tempo.
Porque ele era meu.
Hoje e - cada vez mais - amanhã, sinto-me comprimida.

Ontem já é daqui a dez anos.

(...) Só sei que ontem amanhece, e eu ainda estou aqui...

quarta-feira, 9 de junho de 2010

um destino qualquer

hoje eu chorei
e esperei
chorei sentidos
chorei pedidos
e despertei
para a vida
para a partida
que eu sei

porque hoje chorei
chorei destinos
chorei cansaços
chorei abraços
esparsos
pequeninos

gritei ao céu
pedi ao papel
e brinquei
com meus escritos
que eu encontrei
perdidos
em lágrimas
de mel

chorei vontade
chorei saudade
e deixei
voar
ao vento
o cimento
do meu olhar

minha verdade
o seu silêncio
que eu quis chorar

segunda-feira, 31 de maio de 2010

estrela cadente

Mesmo respirando toda essa paz, ainda assim chega a noite.

Olho para o céu e nele vejo algo de imenso. É como se eu pudesse sentir essa imensidão dentro de mim.

Eu sei que amanhã estarei novamente ao seu lado. E o sol nascerá como faz toda manhã. Mas agora o que me cerca são as estrelas. Aquelas que me protegiam no telhado, quando eu queria tocá-las. As mesmas que um dia me fizeram dormir ao relento, na expectativa de contar os vaga-lumes cadentes. Luzes que me mantiveram em órbita.

Hoje sei que estou sozinha. Não solitária. Estou aqui, no décimo primeiro andar, e não há ninguém comigo. Só a noite. Mas uma escuridão amiga. A que já enxugou lágrimas, desenhou sorrisos e refez lembranças. A que protege da luz. A que adormece as mentes e os corpos. O cenário dos sonhos.

Aqui me vi, com ela. E somente com ela. E no vento frio da madrugada havia algo de divino.
Algo de poético.
Poesia que a gente respira.
Paz.

Enfim, posso dormir em paz.

Boa noite.

sábado, 29 de maio de 2010

quem sabe

anoitecia
memória vazia
a lua dormia
a vida doía
quem sabe, amaria
...
a rosa morria

mas ela insistia
em fazer poesia

de dia
a voz era fria
o sonho, agonia
a inércia corria
o sol se escondia
a ausência existia

então acordou

ainda sentia
e sorria, sorria...

quinta-feira, 27 de maio de 2010

porque dizer é indizível

Eu, que comecei a escrever para mim mesma, talvez agora queira conversar. Perguntar e responder para o que vem de fora. Para quem vê de fora. Entender o que é além, de outro mundo. Que não o do meu silêncio em forma de palavras.

Essas que eu uso para tocar de longe, sentir sem me envolver. Morrer sem despedidas.

Porque eu uso as palavras para que deixem de ser palavras. Para que voem alto, libertem-se de um eu - que sou eu - que as domina. Para que dancem, chorem, sorriam. Sem o carrasco que as espreme, sufoca e arrasta, obcecado por que façam sentido. Como se precisassem de sentido para ser o que são. Como se sozinhas fossem vazias. E mudas.

Mas as minhas fizeram-se soltas: seguem para onde querem ir. E às vezes voltam sem pedir licença. Deitam-se, reclamam. Amam. Permanecem e mudam sem que eu saiba.

Descubro-as do avesso e aí já é tarde: disseram sem que eu pudesse impedir. Enfileiraram-se sem que eu pudesse sequer escolher qual viria antes. Falaram por si mesmas, livres e encantadas. E a mim só restou obedecer...

Entendê-las e amá-las.

domingo, 23 de maio de 2010

a falta do que sobra

De repente, eu me vi querendo encaixar todas as peças. Até aquelas que não eram minhas. Porque me incomodava que estivessem fora do lugar.
Enquanto corria para colocar os pingos nos is, não percebi que a tempestade me molhava.
Mas o que eu queria era consertar. Não me importava que a chuva fosse forte, desde que ela limpasse o que estava sujo. Desde que o vento fizesse da bagunça um suspiro.
E o mundo então seria a paisagem. Dessas que vemos da janela (de olhos bem fechados).

Agora eu me lembro.
Porque eu quis abrir a janela e ver o sol no céu, brilhando como nas fotografias. Quis ver a água no mar, sem transbordá-lo nem deixá-lo raso. Eu quis medir com as minhas medidas. Medidas postiças, que só acertam o que não existe.

Mas eu acordei a tempo.
E descobri que o mundo é torto - e esse é o seu charme.
As cores se misturando no pôr-do-sol. Essa é a beleza.
As peças procurando a si mesmas, sem saber que rumo tomar. Esse é o porquê.
Sobrando ou faltando.
Erradas.
Sem ritmo, sem com-
passo.
Existindo ou havendo.

Excesso de vida.

terça-feira, 18 de maio de 2010

rumo ao sim

Ele era especial.
Desde o começo.
No fundo, eu podia ver além. Eu sempre pude ver, e às vezes fechei os olhos.
Que seja. Hoje enxergo nitidamente. Posso ver como a uma luz que brilha e não sabe apagar.
Como ele. Não sabe apagar. Só aprendeu a brilhar, e desaprender é escuro.
Então ele brilha. Encanta. Inventa. Conquista.
Porque sonha.
Sonha enquanto dorme, enquanto vive.
Sonha enquanto sonha.
E pensa ao invés de dormir.
Repensa, pondera, espera.
Corre. Enquanto caminhar já é difícil.

O momento chegou, eu sei.
A sua luz agora cega. É intensa, inteira.
É sua.
Felicidade?
Liberdade?

Eu diria, antes, vida.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

eu, sorrindo

Descanso como num dia qualquer. E sorrio. De repente, tudo parece ter graça. Eu tento descobrir por que, olho para o lado: não há nada além do movimento.
Ouço a música, enquanto o ônibus balança. Ele dança, eu sei. No mesmo ritmo que ouço. A música me diz para onde devo ir, mas permaneço. Enquanto o ônibus segue.
Para onde? Para o dia-a-dia, para o destino marcado, cansado de ser tão comum. Meu Deus, como posso continuar sorrindo?
Meu sorriso tem graça. E eu vejo a rotina brilhar. "As cores têm vida?" O ônibus pára. Desço. Caminho sem saber se ainda sou eu. Sigo para onde meus pés me levam, de repente prefiro não pensar. Não cansar.

Adiante, o espelho. Sim, sou eu.

Cheguei.

terça-feira, 11 de maio de 2010

preto e branco

não é que a felicidade hipnotize a inspiração. ela só pontua o que, sem a sua paz, correria livre.
agora não sei bem, mas acho que a poesia rima mesmo é depois de um dia cinza.
ou verde.

(que eu só sei escrever nessas duas cores)

quinta-feira, 6 de maio de 2010

segredo

[No fundo, o que eu quero é ficar aqui.
Divagando, enquanto o mundo gira torto.
Nem que seja para repetir o que eu já disse.
Nem que seja para não dizer nada...
(Sei que) ainda assim, o desperdício será menor do que aceitar.
Do que ter que girar para o nada, sem vontade,
só porque é para lá que o mundo vai.]

terça-feira, 4 de maio de 2010

encontro

...porque se aprende que o mundo vai além do nosso interior. E é além de nós que estão as perguntas mais difíceis. Não, o que me aflige não é aflição. E o que mais me admira: já não sei onde encontrá-la...

domingo, 2 de maio de 2010

à milésima quarta

ontem, ela viu tudo se resumir a um bilhete na van, enquanto voltava para casa, há 5 anos.
nele: "eu prefiro tentar do que me arrepender depois", à caneta, letra apressada.
não podiam perder tempo.
"gesto impulsivo", ele disse.
ela sorriu.
sorriu como sorria naquele tempo.
sorriu como se o mundo parasse, de repente, e só restassem os dois.

e tudo se resumiu à felicidade.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

limites

Sei que agora eu deveria estar lendo um texto qualquer sobre qualquer assunto teórico. E depois dele, tudo começaria a fazer sentido. Porque a teoria se encaixa de tal forma que... nem sei como explicar. Tanta perfeição limitada em si mesma. E dali não sai. 

Eu deveria agora interromper esses escritos sem destino certo, para me dedicar às certezas em que alguém gostaria muito que eu acreditasse. 

Mas eu teimo comigo o tempo todo. E prefiro ficar aqui, sem entender nada, mais uma vez. À espera de que eu abra a janela pela manhã e o mundo faça sentido por si só. À espera do dia em que a felicidade seja medida pelo que sinto, e não pelo que dizem que ainda me falta.

E eu espero escrevendo, que é quando teorizo contra mim mesma. 

Sem limites.

dizer por dizer

O tempo é a indefinição que mais me encanta. É ele que ensina o que achamos impossível de aprender. E é dele também que vem a cura daquela dor profunda, que por vezes acreditamos ser uma parte de nós. Ele é a fala do que virá, o silêncio do que passou.

O agora é o que é. Já não é mais.
- Volta! Fica...
- Não posso.

Cada letra que escrevo tem seu próprio tempo. De estar e de ir. E de dissolver-se. Mas quando lida, cada uma delas nasce de novo. É assim que as palavras ganham vida nova. E envelhecem, como nós, a todo instante...

terça-feira, 20 de abril de 2010

intensidade

Não choro. Não sorrio.
Eu sinto as lágrimas doerem quando caem. E do meu sorriso, a felicidade grita. 
Não sei viver, e ir vivendo. Como se tanto fizesse estar aqui. Como se bastasse existir para ser. Como se amar fosse gostar muito. Como se sofrer fosse simples. 

Mas quem vive assim - mais ou menos - sabe que a dor não dói tanto assim. E que nenhum sorriso dura até o fim do dia. Que tudo vem e vai com uma rapidez tamanha, que é quase impossível dizer que algo fica. Eles, que vivem assim, me dizem que não vale a pena chorar ou sorrir com a alma. Mas apenas com os olhos e a boca, que é mais justo com a gente mesmo.

E eis que tentei. Tentei chorar vazio, sorrir sem sabor, sentir com a superfície da superfície. Eis que morri. 

Não, não sei morrer enquanto (ainda) estou viva.

terça-feira, 13 de abril de 2010

bem aqui, do outro lado

Não é preciso ir longe: basta colocar a cabeça pra fora da janela do meu pequeno apartamento para considerá-lo uma mansão. Lá fora, alheio ao movimento da noite, movida a barulho e farol, está ele. Ao lado dela. E eles se enamoram. Como se ele encontrasse nela sua paz, seu conforto. Tocam-se com cuidado: nela pode estar sua vida.

Sim, naquela lata de lixo, a 11 andares de mim, a outros tantos de você, uma realidade triste reluz todas as noites. E dói. Para ele, o meu resto pode ser tudo.

Caixa por caixa, saco por saco, ele abre cada um. Talvez encontre meu pão de anteontem, ou aquela caixa de suco, que você deixou pela metade. "Tomara."

Na outra margem, passam por ele a senhora agasalhada, o empresário falando ao celular, a mãe de salto com o filhinho no colo. Todos ansiando pelos pães frescos que os esperam em casa. Todos imersos, dispersos, submersos sabe-se lá Deus onde. Como se aquela cena por que passam não existisse.

Enquanto os vejo passar, vejo também alguém que revira o lixo para comer. Na mesma calçada. Por onde a vida segue, descalça e doída. Bem aqui, do outro lado...

domingo, 11 de abril de 2010

quando as palavras não alcançam

Temos que morrer para renascer. Temos que deixar as lágrimas correrem para, então, sorrir. Temos que perder para procurar. Que magoar, para abraçar. Temos que errar, mil vezes. E escolher, tantas outras, um caminho que não é o nosso. Para, depois de tudo, aprender que as coisas que perdermos têm mais valor justamente quando e porque decidem ir embora. 

O que me resta agora é ser capaz de crer que, não, eu ainda não perdi tudo.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

a hora de dizer

Escrevo porque o que sinto é indizível.
E as palavras brincam de me dizer.
A tristeza, agora, é sem espaço.
Precisa de um cantinho para dormir
e sonhar, fora de mim.
Dentro de mim, há o que há,
e não cabe o que não há.
Em mim, não há mais espaço
nem tempo
...de resgatar o que se foi.

Enquanto isso, aqui do lado, a chuva ainda cai (...)

sábado, 3 de abril de 2010

o primeiro silêncio

Confusão.
Confesso preferir a prosa, lógica rígida de divagações. Mas o que me resta é a poesia sem regras, sem sentidos.
Nela talvez eu me faça mais livre. Nela o que penso e sinto talvez se organize melhor. E se faça entender melhor. E respire melhor.
Já que agora estou sem ar.

Quero ser a confusão da rua
E o silêncio dos desenganados
Quero ser a vida breve e nua
A voz dos desesperados

Quero me perder, sonhar com Deus
Adormecer sobre a minha alma
Reconhecer a força que me acalma 
Ver, na escuridão, os olhos teus

Pois, sim, sou o que é breve
Sou sentido leve, sou sentido meu
De uma valsa triste, que recomeçou
Que me enfeitiçou e se perdeu

Minha saudade é de outro tempo
É de moleque, instante eterno
Meu coração pousa no vento:
Entre o meu céu e o teu inferno

Morre, enfim, essa lembrança
E ressuscita o que desfaz
Refaz a fé, desesperança
Que a vida encerra, mas...