terça-feira, 13 de abril de 2010

bem aqui, do outro lado

Não é preciso ir longe: basta colocar a cabeça pra fora da janela do meu pequeno apartamento para considerá-lo uma mansão. Lá fora, alheio ao movimento da noite, movida a barulho e farol, está ele. Ao lado dela. E eles se enamoram. Como se ele encontrasse nela sua paz, seu conforto. Tocam-se com cuidado: nela pode estar sua vida.

Sim, naquela lata de lixo, a 11 andares de mim, a outros tantos de você, uma realidade triste reluz todas as noites. E dói. Para ele, o meu resto pode ser tudo.

Caixa por caixa, saco por saco, ele abre cada um. Talvez encontre meu pão de anteontem, ou aquela caixa de suco, que você deixou pela metade. "Tomara."

Na outra margem, passam por ele a senhora agasalhada, o empresário falando ao celular, a mãe de salto com o filhinho no colo. Todos ansiando pelos pães frescos que os esperam em casa. Todos imersos, dispersos, submersos sabe-se lá Deus onde. Como se aquela cena por que passam não existisse.

Enquanto os vejo passar, vejo também alguém que revira o lixo para comer. Na mesma calçada. Por onde a vida segue, descalça e doída. Bem aqui, do outro lado...

Nenhum comentário:

Postar um comentário