sábado, 19 de junho de 2010

além do arco-íris

Acordei e tinha superpoderes. Voava mais que o céu e brincava de beijar as estrelas.
Eu podia estar aqui e lá ao mesmo tempo.
Eu sabia ler pensamentos, colar pedaços partidos.
Compreendia meus inimigos, e as lágrimas só caíam quando era preciso regar o jardim.
Nada desperdiçado.
Eu unia pessoas distantes, selava amizades, desfazia mal-entendidos.
Podia consertar qualquer erro do mundo, reparar qualquer defeito.
Meus olhos podiam ver de tudo, e da minha boca só saía o que se devia dizer - e ouvir.
Cada passo para frente, cada pedra, uma flor.
Eu sabia que bastava tocar - e o mundo ficava encantado.
Sim, eu podia curar.
Curar o mundo da sua dor.
E da minha.
Eu podia - e devia - transformá-lo num céu estrelado - fizesse chuva ou sol.

Mas anoiteceu, e adormeci.
Quando despertei, era novo dia, e as estrelas estavam de novo distantes.
Eu só podia estar aqui, porque lá ficara muito longe.
Meus pedaços se partiram, e eu sofri.
Minhas lágrimas enchiam o mar, os inimigos sorriam.
Tudo desperdiçado.
Eu dividia, distorcia: estava de novo cega.
Cada passo, em falso. Cada flor, uma pedra.

Mal sabia que bastava tocar
- e tocar era tão simples -
para viver, para sempre, um sonho.

Um comentário:

  1. Sem dúvida,
    Minha escritora favorita.

    Parabéns.
    Seus textos tocam a alma de qualquer pessoa minimamente sensível.

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