quinta-feira, 29 de abril de 2010

limites

Sei que agora eu deveria estar lendo um texto qualquer sobre qualquer assunto teórico. E depois dele, tudo começaria a fazer sentido. Porque a teoria se encaixa de tal forma que... nem sei como explicar. Tanta perfeição limitada em si mesma. E dali não sai. 

Eu deveria agora interromper esses escritos sem destino certo, para me dedicar às certezas em que alguém gostaria muito que eu acreditasse. 

Mas eu teimo comigo o tempo todo. E prefiro ficar aqui, sem entender nada, mais uma vez. À espera de que eu abra a janela pela manhã e o mundo faça sentido por si só. À espera do dia em que a felicidade seja medida pelo que sinto, e não pelo que dizem que ainda me falta.

E eu espero escrevendo, que é quando teorizo contra mim mesma. 

Sem limites.

dizer por dizer

O tempo é a indefinição que mais me encanta. É ele que ensina o que achamos impossível de aprender. E é dele também que vem a cura daquela dor profunda, que por vezes acreditamos ser uma parte de nós. Ele é a fala do que virá, o silêncio do que passou.

O agora é o que é. Já não é mais.
- Volta! Fica...
- Não posso.

Cada letra que escrevo tem seu próprio tempo. De estar e de ir. E de dissolver-se. Mas quando lida, cada uma delas nasce de novo. É assim que as palavras ganham vida nova. E envelhecem, como nós, a todo instante...

terça-feira, 20 de abril de 2010

intensidade

Não choro. Não sorrio.
Eu sinto as lágrimas doerem quando caem. E do meu sorriso, a felicidade grita. 
Não sei viver, e ir vivendo. Como se tanto fizesse estar aqui. Como se bastasse existir para ser. Como se amar fosse gostar muito. Como se sofrer fosse simples. 

Mas quem vive assim - mais ou menos - sabe que a dor não dói tanto assim. E que nenhum sorriso dura até o fim do dia. Que tudo vem e vai com uma rapidez tamanha, que é quase impossível dizer que algo fica. Eles, que vivem assim, me dizem que não vale a pena chorar ou sorrir com a alma. Mas apenas com os olhos e a boca, que é mais justo com a gente mesmo.

E eis que tentei. Tentei chorar vazio, sorrir sem sabor, sentir com a superfície da superfície. Eis que morri. 

Não, não sei morrer enquanto (ainda) estou viva.

terça-feira, 13 de abril de 2010

bem aqui, do outro lado

Não é preciso ir longe: basta colocar a cabeça pra fora da janela do meu pequeno apartamento para considerá-lo uma mansão. Lá fora, alheio ao movimento da noite, movida a barulho e farol, está ele. Ao lado dela. E eles se enamoram. Como se ele encontrasse nela sua paz, seu conforto. Tocam-se com cuidado: nela pode estar sua vida.

Sim, naquela lata de lixo, a 11 andares de mim, a outros tantos de você, uma realidade triste reluz todas as noites. E dói. Para ele, o meu resto pode ser tudo.

Caixa por caixa, saco por saco, ele abre cada um. Talvez encontre meu pão de anteontem, ou aquela caixa de suco, que você deixou pela metade. "Tomara."

Na outra margem, passam por ele a senhora agasalhada, o empresário falando ao celular, a mãe de salto com o filhinho no colo. Todos ansiando pelos pães frescos que os esperam em casa. Todos imersos, dispersos, submersos sabe-se lá Deus onde. Como se aquela cena por que passam não existisse.

Enquanto os vejo passar, vejo também alguém que revira o lixo para comer. Na mesma calçada. Por onde a vida segue, descalça e doída. Bem aqui, do outro lado...

domingo, 11 de abril de 2010

quando as palavras não alcançam

Temos que morrer para renascer. Temos que deixar as lágrimas correrem para, então, sorrir. Temos que perder para procurar. Que magoar, para abraçar. Temos que errar, mil vezes. E escolher, tantas outras, um caminho que não é o nosso. Para, depois de tudo, aprender que as coisas que perdermos têm mais valor justamente quando e porque decidem ir embora. 

O que me resta agora é ser capaz de crer que, não, eu ainda não perdi tudo.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

a hora de dizer

Escrevo porque o que sinto é indizível.
E as palavras brincam de me dizer.
A tristeza, agora, é sem espaço.
Precisa de um cantinho para dormir
e sonhar, fora de mim.
Dentro de mim, há o que há,
e não cabe o que não há.
Em mim, não há mais espaço
nem tempo
...de resgatar o que se foi.

Enquanto isso, aqui do lado, a chuva ainda cai (...)

sábado, 3 de abril de 2010

o primeiro silêncio

Confusão.
Confesso preferir a prosa, lógica rígida de divagações. Mas o que me resta é a poesia sem regras, sem sentidos.
Nela talvez eu me faça mais livre. Nela o que penso e sinto talvez se organize melhor. E se faça entender melhor. E respire melhor.
Já que agora estou sem ar.

Quero ser a confusão da rua
E o silêncio dos desenganados
Quero ser a vida breve e nua
A voz dos desesperados

Quero me perder, sonhar com Deus
Adormecer sobre a minha alma
Reconhecer a força que me acalma 
Ver, na escuridão, os olhos teus

Pois, sim, sou o que é breve
Sou sentido leve, sou sentido meu
De uma valsa triste, que recomeçou
Que me enfeitiçou e se perdeu

Minha saudade é de outro tempo
É de moleque, instante eterno
Meu coração pousa no vento:
Entre o meu céu e o teu inferno

Morre, enfim, essa lembrança
E ressuscita o que desfaz
Refaz a fé, desesperança
Que a vida encerra, mas...