segunda-feira, 31 de maio de 2010

estrela cadente

Mesmo respirando toda essa paz, ainda assim chega a noite.

Olho para o céu e nele vejo algo de imenso. É como se eu pudesse sentir essa imensidão dentro de mim.

Eu sei que amanhã estarei novamente ao seu lado. E o sol nascerá como faz toda manhã. Mas agora o que me cerca são as estrelas. Aquelas que me protegiam no telhado, quando eu queria tocá-las. As mesmas que um dia me fizeram dormir ao relento, na expectativa de contar os vaga-lumes cadentes. Luzes que me mantiveram em órbita.

Hoje sei que estou sozinha. Não solitária. Estou aqui, no décimo primeiro andar, e não há ninguém comigo. Só a noite. Mas uma escuridão amiga. A que já enxugou lágrimas, desenhou sorrisos e refez lembranças. A que protege da luz. A que adormece as mentes e os corpos. O cenário dos sonhos.

Aqui me vi, com ela. E somente com ela. E no vento frio da madrugada havia algo de divino.
Algo de poético.
Poesia que a gente respira.
Paz.

Enfim, posso dormir em paz.

Boa noite.

sábado, 29 de maio de 2010

quem sabe

anoitecia
memória vazia
a lua dormia
a vida doía
quem sabe, amaria
...
a rosa morria

mas ela insistia
em fazer poesia

de dia
a voz era fria
o sonho, agonia
a inércia corria
o sol se escondia
a ausência existia

então acordou

ainda sentia
e sorria, sorria...

quinta-feira, 27 de maio de 2010

porque dizer é indizível

Eu, que comecei a escrever para mim mesma, talvez agora queira conversar. Perguntar e responder para o que vem de fora. Para quem vê de fora. Entender o que é além, de outro mundo. Que não o do meu silêncio em forma de palavras.

Essas que eu uso para tocar de longe, sentir sem me envolver. Morrer sem despedidas.

Porque eu uso as palavras para que deixem de ser palavras. Para que voem alto, libertem-se de um eu - que sou eu - que as domina. Para que dancem, chorem, sorriam. Sem o carrasco que as espreme, sufoca e arrasta, obcecado por que façam sentido. Como se precisassem de sentido para ser o que são. Como se sozinhas fossem vazias. E mudas.

Mas as minhas fizeram-se soltas: seguem para onde querem ir. E às vezes voltam sem pedir licença. Deitam-se, reclamam. Amam. Permanecem e mudam sem que eu saiba.

Descubro-as do avesso e aí já é tarde: disseram sem que eu pudesse impedir. Enfileiraram-se sem que eu pudesse sequer escolher qual viria antes. Falaram por si mesmas, livres e encantadas. E a mim só restou obedecer...

Entendê-las e amá-las.

domingo, 23 de maio de 2010

a falta do que sobra

De repente, eu me vi querendo encaixar todas as peças. Até aquelas que não eram minhas. Porque me incomodava que estivessem fora do lugar.
Enquanto corria para colocar os pingos nos is, não percebi que a tempestade me molhava.
Mas o que eu queria era consertar. Não me importava que a chuva fosse forte, desde que ela limpasse o que estava sujo. Desde que o vento fizesse da bagunça um suspiro.
E o mundo então seria a paisagem. Dessas que vemos da janela (de olhos bem fechados).

Agora eu me lembro.
Porque eu quis abrir a janela e ver o sol no céu, brilhando como nas fotografias. Quis ver a água no mar, sem transbordá-lo nem deixá-lo raso. Eu quis medir com as minhas medidas. Medidas postiças, que só acertam o que não existe.

Mas eu acordei a tempo.
E descobri que o mundo é torto - e esse é o seu charme.
As cores se misturando no pôr-do-sol. Essa é a beleza.
As peças procurando a si mesmas, sem saber que rumo tomar. Esse é o porquê.
Sobrando ou faltando.
Erradas.
Sem ritmo, sem com-
passo.
Existindo ou havendo.

Excesso de vida.

terça-feira, 18 de maio de 2010

rumo ao sim

Ele era especial.
Desde o começo.
No fundo, eu podia ver além. Eu sempre pude ver, e às vezes fechei os olhos.
Que seja. Hoje enxergo nitidamente. Posso ver como a uma luz que brilha e não sabe apagar.
Como ele. Não sabe apagar. Só aprendeu a brilhar, e desaprender é escuro.
Então ele brilha. Encanta. Inventa. Conquista.
Porque sonha.
Sonha enquanto dorme, enquanto vive.
Sonha enquanto sonha.
E pensa ao invés de dormir.
Repensa, pondera, espera.
Corre. Enquanto caminhar já é difícil.

O momento chegou, eu sei.
A sua luz agora cega. É intensa, inteira.
É sua.
Felicidade?
Liberdade?

Eu diria, antes, vida.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

eu, sorrindo

Descanso como num dia qualquer. E sorrio. De repente, tudo parece ter graça. Eu tento descobrir por que, olho para o lado: não há nada além do movimento.
Ouço a música, enquanto o ônibus balança. Ele dança, eu sei. No mesmo ritmo que ouço. A música me diz para onde devo ir, mas permaneço. Enquanto o ônibus segue.
Para onde? Para o dia-a-dia, para o destino marcado, cansado de ser tão comum. Meu Deus, como posso continuar sorrindo?
Meu sorriso tem graça. E eu vejo a rotina brilhar. "As cores têm vida?" O ônibus pára. Desço. Caminho sem saber se ainda sou eu. Sigo para onde meus pés me levam, de repente prefiro não pensar. Não cansar.

Adiante, o espelho. Sim, sou eu.

Cheguei.

terça-feira, 11 de maio de 2010

preto e branco

não é que a felicidade hipnotize a inspiração. ela só pontua o que, sem a sua paz, correria livre.
agora não sei bem, mas acho que a poesia rima mesmo é depois de um dia cinza.
ou verde.

(que eu só sei escrever nessas duas cores)

quinta-feira, 6 de maio de 2010

segredo

[No fundo, o que eu quero é ficar aqui.
Divagando, enquanto o mundo gira torto.
Nem que seja para repetir o que eu já disse.
Nem que seja para não dizer nada...
(Sei que) ainda assim, o desperdício será menor do que aceitar.
Do que ter que girar para o nada, sem vontade,
só porque é para lá que o mundo vai.]

terça-feira, 4 de maio de 2010

encontro

...porque se aprende que o mundo vai além do nosso interior. E é além de nós que estão as perguntas mais difíceis. Não, o que me aflige não é aflição. E o que mais me admira: já não sei onde encontrá-la...

domingo, 2 de maio de 2010

à milésima quarta

ontem, ela viu tudo se resumir a um bilhete na van, enquanto voltava para casa, há 5 anos.
nele: "eu prefiro tentar do que me arrepender depois", à caneta, letra apressada.
não podiam perder tempo.
"gesto impulsivo", ele disse.
ela sorriu.
sorriu como sorria naquele tempo.
sorriu como se o mundo parasse, de repente, e só restassem os dois.

e tudo se resumiu à felicidade.