quarta-feira, 30 de junho de 2010

colorindo

...porque talvez eu tenha aprendido a ver todas as cores.
Cores de vida.
Da noite. Da falta. Do abraço.
Do sorriso. Do cansaço.
Do detalhe.
As cores do medo de fechar os olhos
e esquecer que além do cinza existe - e persiste - a nuance perfeita.

Talvez compreendê-la tenha me dado asas - e pernas.
É que simplesmente seguir exige também novos passos.
E, para sempre, velhos sonhos.

***
Colorir é reconhecer os tons e o brilho de um talvez, ou de um quem sabe - que sabe.
É deixar-se adormecer quando o mundo inteiro vibra, e enlouquecer quando o mundo quer a paz.
É reaprender a falar em silêncio,
e então ouvi-lo.

É redescobrir-se criança
e afinal compreender que, para ver além,
não existe outro caminho.

sábado, 19 de junho de 2010

além do arco-íris

Acordei e tinha superpoderes. Voava mais que o céu e brincava de beijar as estrelas.
Eu podia estar aqui e lá ao mesmo tempo.
Eu sabia ler pensamentos, colar pedaços partidos.
Compreendia meus inimigos, e as lágrimas só caíam quando era preciso regar o jardim.
Nada desperdiçado.
Eu unia pessoas distantes, selava amizades, desfazia mal-entendidos.
Podia consertar qualquer erro do mundo, reparar qualquer defeito.
Meus olhos podiam ver de tudo, e da minha boca só saía o que se devia dizer - e ouvir.
Cada passo para frente, cada pedra, uma flor.
Eu sabia que bastava tocar - e o mundo ficava encantado.
Sim, eu podia curar.
Curar o mundo da sua dor.
E da minha.
Eu podia - e devia - transformá-lo num céu estrelado - fizesse chuva ou sol.

Mas anoiteceu, e adormeci.
Quando despertei, era novo dia, e as estrelas estavam de novo distantes.
Eu só podia estar aqui, porque lá ficara muito longe.
Meus pedaços se partiram, e eu sofri.
Minhas lágrimas enchiam o mar, os inimigos sorriam.
Tudo desperdiçado.
Eu dividia, distorcia: estava de novo cega.
Cada passo, em falso. Cada flor, uma pedra.

Mal sabia que bastava tocar
- e tocar era tão simples -
para viver, para sempre, um sonho.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

a saudade que eu sinto

O tempo me roubou.

Ontem não era quarta. Mas segunda. Eu voltava de ônibus, lendo. Lia para não perder tempo. Meus olhos se fechavam, mas no meu sonho cabiam todas as páginas. Não arriscaria me perder.

Ontem era semana passada. Eu fotografava o céu, o mar. Registrava tudo para não perder nada. Cada disparo diminuía o meu medo de deixar passar.

Ontem eu fazia 15 anos. Eu corria e o mundo passava, depressa, mas a mim pouco importava se o relógio marcava dez ou meio-dia.

Ontem eu jogava bola na rua. Brincava, pulava e era a liberdade que me protegia quando eu tinha medo do escuro.

Ontem eu aprendia a andar de bicicleta. Eu caía, mas logo levantava, sem me preocupar de quantos tombos precisaria para aprender. Sem pressa, sem medo de errar.

Ontem não havia o tempo.
Porque ele era meu.
Hoje e - cada vez mais - amanhã, sinto-me comprimida.

Ontem já é daqui a dez anos.

(...) Só sei que ontem amanhece, e eu ainda estou aqui...

quarta-feira, 9 de junho de 2010

um destino qualquer

hoje eu chorei
e esperei
chorei sentidos
chorei pedidos
e despertei
para a vida
para a partida
que eu sei

porque hoje chorei
chorei destinos
chorei cansaços
chorei abraços
esparsos
pequeninos

gritei ao céu
pedi ao papel
e brinquei
com meus escritos
que eu encontrei
perdidos
em lágrimas
de mel

chorei vontade
chorei saudade
e deixei
voar
ao vento
o cimento
do meu olhar

minha verdade
o seu silêncio
que eu quis chorar