domingo, 29 de agosto de 2010

segundo capítulo

Eu não espero mais de mim. Não me cobro mais sonhos, verdades nem lembranças. Não imponho limites, não faço contas nem listas. Apenas sigo sem as velhas pretensões que – só hoje posso ver – nunca foram minhas.
Daqui de cima (ou de baixo), assisto ao meu próprio passeio: sem o peso nas costas, sem a obrigação de estar sempre em pé, sem as respostas na ponta da língua.
Porque agora o destino é adiante. Inevitavelmente para frente, porque o passado não me faria o favor de voltar. E é com os pés exaustos de cumprir e exercer que espero chegar.
Ou, simplesmente, continuar seguindo.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

ela

Ela queria não saber para onde ir. E vagar, sem rumo, pelos próprios sonhos. Ela queria não ter as certezas que hoje gritam enquanto dorme, nem as dúvidas que silenciam enquanto está acordada. Talvez ainda tenha que reviver algumas histórias e descartar outras. Ou simplesmente escolher as dores e alegrias daqui para frente.

O espelho lhe diz que cresceu depressa. As paredes, que se esqueceu de pintá-las. Nos armários, uma vida que já não é tão sua. Na mochila, tudo o que deve ser feito, pensado, dito e vivido. Da janela, rotinas que se esbarram. Na TV, como continuar escondendo-se de si mesma.

Na gaveta, dezenas de sonhos enlatados, à espera do dia perfeito. Sobre eles, livros, horários e vazios.

Sonhos que se roubaram enquanto ela se perdia no tempo.

O mesmo tempo que a roubou.