sexta-feira, 19 de novembro de 2010

terça-feira, 9 de novembro de 2010

da janela

Daqui, assisto a um filme. De frente, do melhor ângulo para enxergar as mesmas ações que, no cinema, exigem um lugar especial. Lá fora, as luzes começam a se apagar, como na sala escura. Está anoitecendo e, do outro lado, os dois se sentam à mesa. Como sempre. Não ouço as falas, é um filme mudo. Eles jantam juntos. Ela atende ao telefone sem fio, à mesa, o cenário permanente. Ele se levanta, toma o remédio de sempre em frente ao relógio que, agora, marca sete e quarenta. Hoje ela não corrige as provas. Ele não lê o jornal. Hoje a noite é diferente. E igual.
Ela embaralha, dá as cartas. O jogo começa. E, com ele, o meu filme das sete. Um seriado. Ele compra, descarta. Ela compra, descarta. Um silêncio de falas e de gestos, calados, iguais. O tempo passa. Eu acompanho, sem me concentrar. O olhar, distraído. Perdido entre tantos outros canais, que piscam, como a TV.
Já são oito e vinte.
Ele espera. Compra. Perde mais alguns segundos ponderando. Então descarta. É quando vejo que ela já tem dois ou três jogos baixados. Que se dispõem, folgados, na mesa de seis lugares. Agora sem filhos, sem rotina ou trabalho. Os netos, só vêm às vezes. Mesa que ficou imensa para os dois. Mesa que já foi pequena, e sobre a qual hoje jogam, todas as noites. Juntos. Para entreter a ausência. Porque a vida segue.
Perdi um lance, alguém bateu. Fico sem saber quem. Ele embaralha, novo jogo. Porque agora já não importa ganhar ou perder. Porque a rotina precisa se distrair. Porque o tempo passa e, com ele, passa o mesmo. E o novo precisa nascer, todas as manhãs.
Todas as noites.
A que eu assisto, de perto. Bem perto.