segunda-feira, 7 de março de 2016

o que fica

Meu avô que dizia, sempre disse, essa história de não desistir, de insistir nas pessoas. Ele sentado na poltrona cor de chumbo da sala, vendo seus filmes compenetrado, imerso em seu mundo até alguém passar. E quase sempre esse alguém era eu, criança que corre e que olha pro avô, como que buscando em seus olhos o mundo. Ele sorria e me punha em seu colo, me olhava nos olhos, aqueles olhos fundos de quem não dorme, pra talvez não perder um minuto de vida.

Ele descansava sobre mim aquele olhar profundo e me fazia umas perguntas que eu não sabia responder, nem antes nem agora, muito menos agora. Em seu colo eu via que o mundo era maior que hoje, talvez mais colorido, na TV um filme, a gente olhando por um tempo juntos, então eu cansava, vô, quero descer, ah, fica mais um pouquinho, e aí eu ficava, atendendo a seu pedido mágico.

Ele sempre me pedia pra ficar e, depois, mais crescida, pra fazer dos meus sonhos uma semente: regá-la todos os dias até ter raízes, pra depois colher os frutos e os repartir, sem apego, como quem sabe que nada é só de quem plantou – ao contrário, é de quem passar e pedir, e então você dá. Regue e doe seus sonhos, e o principal, você vai ver, esteja atenta, não desista de quem você sente, de algum modo sente que pode voltar.

E então chegou a tarde estranha de chuva, quando bati a porta tão triste, cada gota no vidro uma lágrima, eu só querendo sumir por uns dias, meses e anos, e quando me preparava para subir as escadas, continuar chorando entre meus travesseiros, o vô me olhou da mesma poltrona de sempre e me disse, calma, hoje vai doer, mas vai passar. E de um modo sutil me explicou, as pessoas são assim mesmo, elas erram porque se afogam, se afogam nas próprias angústias, nas próprias mágoas, mas não porque sejam más  e, sim, você deve continuar, mesmo doendo, sempre insistir nas pessoas. 

Eu me deitei no carpete da sala, a chuva lá fora borrando o vidro, desenhando um caminho torto que aos poucos se endireitava, o vô sentado me acariciando os cabelos, a TV muda, um filme mudo e eu ali, mais muda que qualquer silêncio. 

No dia seguinte acordei no meu quarto, mas como?, e o vô? O vô já não estava mais lá, o vô não está mais aqui, meu pai disse. Mas, pai?, e ele me olhou profundamente, o vô se foi, filha, faz duas semanas.

E de repente já não havia palavra, não havia seu colo ou seus olhos quando me afoguei num silêncio com gosto de chuva, cada lágrima uma gota me arrastando no vidro, percorrendo um caminho torto e doído mas que aos poucos se endireitava (...)

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