terça-feira, 9 de dezembro de 2014

domingo, 23 de novembro de 2014

invisíveis

num mundo refeito em rede
sou fresta sou pó sou ponte
a desabar toda noite
a desabafar
dia sim
dia não

sobre essa dor de não ser
mais feito de carne e
de sonhos
sobre essa dor de se ver
sem rosto a gritar
outras vozes

sobre essa dor de entender
que daqui desse lado
de fora
falta como que um silêncio
sobra como que um excesso
num clique num sopro

num vão

– tão vazio e tão imenso
(nele cabe o mundo inteiro
espremido entre nós mesmos)
quanto a palma
da minha mão

domingo, 26 de outubro de 2014

cá longe

eu aqui
certa de que

outro lá
bem perto
quiçá
pra gente
só ser
sem ter
nem saber
pra onde
pra nunca
pra estar
outra vez
tão perto que longe
tão cá

domingo, 19 de outubro de 2014

(des)integral

existo assim meio metade de mim mesma
habito parte de um sem todo todo quase
revivo plena excedo sobra e resto inteira
na-rima-exata-da-palavra-que-comparte

quarta-feira, 18 de junho de 2014

abissal

a chuva molha
tudo ao redor
lava a calçada
inteira

eu, inteira
me deixo molhar
silêncio que pinga
e que fala

lava o que foi
borra o que não
limpa o que há
no caminho

inunda os espaços
transborda as medidas
carrega as certezas
pro fundo

até vir o sol
submerso de luz
duvidar dos vazios
do mundo

domingo, 25 de maio de 2014

das aparências

que quero ter
quem quero ser
pra onde ir
pra quem pra que
o que falar
o que calar
o que vestir
o que sonhar
pra que mentir
se hoje já foi
se o tempo é
se o que sobrou
não sei medir
não sei medir
não sei calar
não sei falar
não sei saber
o que sou-fui
o que serei
antes do fim
o que serei
o que terei
quem restarei?
de mim

sexta-feira, 23 de maio de 2014

das ausências

está escuro, eu enxergo mesmo no escuro o teu sorriso tuas falas, as palavras piscam, dizem, dizem em silêncio iluminam o escuro feito luzes-feito cores, como o que eu te disse ontem, que te amo, disse, disse em silêncio feito tudo o que existe-feito tudo o que se esconde aqui dentro

domingo, 18 de maio de 2014

avesso

eu desço pra te procurar
mas o mundo
não está
não está mais como ontem
no mesmo lugar

girou como a gente
pra cá
         e pra lá
         e a areia da praia
en go l i u   o    m   a   r

domingo, 6 de abril de 2014

toda noite

às
vezes
o ar não vem

mas a vida continua
passando como o tempo

e o medo
de ser e
de não ser

nem metade da me
-tade de nós mesmos

quarta-feira, 12 de março de 2014

a cura

minha terapia, preciso e quero tê-la em meus escritos, minha alma se curando com palavras, dessas que brotam de dentro, alegres ou tristes, tão internas que se confundem com a própria dor, gritando abafada pra sair, e ter um colo, um ombro amigo, um beijo, um sopro, um vento ameno, um merthiolate bem vermelho pra ir pintando a dor de cor, e ir borrando a solidão, e colorindo os medos, sem medo de ser louca, e livre, e terapeuta de si mesma, como as palavras e os pontos, que nos libertam lá e cá, no divã do dia a dia, e nos definem para sempre

domingo, 9 de março de 2014

além

na liberdade do amor
há o peso
de ser
simplesmente tudo
o que o outro
precisa

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

o amor

depois de tanto amar, já não sei mais o que é o amor. se é dividir toda uma história, abraçar mesmo na dor, pedir perdão estando certo, ou pedir perdão estando errado. se é sorrir o sorriso mais doce, andar de mãos dadas na rua, sonhar com a casa dos sonhos, escrever belas cartas de amor. se é doar o que já não se tem, compreender o que nunca se soube, esperar o que nunca se quis. se é errar e voltar, se é pedir desculpas primeiro, esquecer que a razão rege o mundo, e abraçar para além dos limites. se é pedir para o outro ficar, olhar nos seus olhos, ver nele o infinito. e dizer tudo ali num silêncio que fala, sem os vícios e os pesos, tão nossos, tão cegos... porque nem todo dia faz sol. nem todo dia tem luz. nem todo dia se pensa igual, se faz amor, se acorda sorrindo, se dorme sem medo. nem todo dia se acerta, nem todo dia é feito de dois. daí o amor. essa força estranha que gosto de chamar de paz e que cura feridas que a gente nem sabia que tinha, e que tem um poder sublime e divino de fazer dos dias cinzas menos tristes, mais serenos, às vezes até coloridos. porque o amor é o que entende, o que abraça e enlaça e recria do nada um sentido maior que já nem sei se cabe no vão das palavras.

vozes

hoje vejo nas palavras de gente que nem sei tudo o que sinto, ou senti quando precisei partir de mim mesma. nas palavras de gente que nem sabe que leio seus medos encontrei meu refúgio e meu sossego. sossego de me sentir pertencente à mesma massa solitária e fria. sossego de me fazer igual, ainda que profundamente diferente.

prece

silencio pra te ouvir
do outro lado
desta rua que nos une
e nos afasta
e sonhar com nossas tardes
tão felizes
quando amar era sorrir
por quase nada
quando amar era
deixar a porta aberta
e dizer "dorme com Deus
minha querida"
sem ter medo de errar
e perder
de arriscar e abraçar
e entender
sem ter medo de mais nada
nessa vida

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

degrau

dei 25 passos
pra chegar 
até aqui

entre flores
mais ou menos
    coloridas

entrelinhas
a bordar
    a minha vida

entre vícios
e pedidos
    que não atendi

entre cartas
que esperei
    para ler e sorrir

entre beijos que não dei
mas guardei
    bem guardados

entre sonhos que sonhei
longe aqui
    do meu lado


    25 passos
    no breu
    novo adeus

    meu caminho
    para sempre
    iluminado

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

cinema

guardo o mundo em mim
inteiro
sem cortes
e todas as partes
me cortam
separam
o que há dentro
do que está fora

sinto a chuva cair
na minha alma
enxuga a lágrima, vai
abaixa a cortina
e me deixa fechar
essa cena
da ferida
que a vida me deu