sábado, 18 de fevereiro de 2017

rascunho

De noite só desejou que todos os mundos coubessem nele. O travesseiro, fazia de extensão do abraço que não veio. Mergulhava a cabeça no infinito das espumas querendo engasgar o choro. Soluço. Vício esse, de chorar enterrado. De chorar e ficar pensando que poderia estar rindo. De acender a luz só pra ficar contando os pontinhos pretos do teto. Estrelas, em algum mundo. Sonhos que poderia ter, e viver, não fosse a rachadura em que se transformavam no infinito (   )

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

depois do sol

ao se propor a arrumar o caos
(ou parte dele)
esteja disposto a chorar
entre poucos risos
não vai ser fácil ter que varrer
os sonhos
e descobrir tantas dores guardadas
não vai ser fácil se entender complexo
e tão brutalmente impotente
não há de ser fácil perceber que um dia a casa esteve arrumada
por pelo menos um tempo
uma medida de tempo
mas você (todos vocês) se embruteceram, deixaram
que suas verdades roubassem
uma razão bem maior e singela

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

break

(porque no meio desse
caos
só mesmo um pouco de
silêncio
pra nos dizer umas
verdades)

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

do avesso

a questão não é tanto como pensamos
mas por que o pensamos
o que nos motiva a brigar e a esquecer
a razão da nossa fala e do nosso silêncio
podemos ser diferentes
sonhar diferente
lutar diferente
e querer a mesma paz

sábado, 27 de agosto de 2016

redes

já não sei o que achar dessas legendas que nem leio
você pode me entender?, pode me ler além da tela?
só escuta o meu silêncio, o mundo é mais que uma janela
e do outro lado tem a vida o amor o mar e a gente inteiro

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

domingo, 17 de julho de 2016

hoje

eu quis abrir o caos do dia com rolo de macarrão
quis desarrumar o quarto só pra te achar entre as cobertas
que você nunca dobra mas eu não ligo
porque tem horas que o pouco
sentido
das coisas
grita
e eu só escuto a gente e a gente
no máximo volume

terça-feira, 28 de junho de 2016

estação

existem vazios que não fecham
vazios feitos de excessos
os dias nos pedindo a costurar
uma ponta à outra das certezas
que tivemos numa tarde ensolarada 
só que chove

(eu olhando 
para além do que já fui
e a mesma cena 
de quem espera a hora
certa
e perde o trem)

no vazio do tempo entre um vagão
e outro
encaro a sorte
do outro lado você quase me acenando
aflito

você quase do meu lado e eu sozinha

(o trem passa na esquina das memórias
l e n t o pede calma
que um dia-agora 
a gente vai se despedir
e nossos vãos serão de ferro 
sobre os trilhos)



          você me vê partindo de mim mesma
e acena louco
eu te assisto: não entendo por que dói
se me afasto é pra esperar um outro tempo
onde os espaços entre a gente
tenham vida

quinta-feira, 16 de junho de 2016

papel machê

as palavras denunciam quem somos
do que somos feitos
do que temos medo

as palavras nos engolem vivos 
à medida que morremos 
sem dizer (   )

que nos desfazemos 
em mil versos
pra rimar a vida

sexta-feira, 13 de maio de 2016

dois

eu sou aquela do sorriso frouxo
a que se arrepende pra depois errar
que erra e se entrega bem antes da hora
que encurta a demora pra se apaixonar

sonho e tropeço no mesmo horizonte
logo que acordo e me esqueço que o céu
está desenhado no teto de casa
borrando meus dias com a tinta de Deus

então vem que é hora da gente voar
com a asa quebrada, sim, que é que tem?
se a gente chegou sem saber se ia dar
se você me ama e eu te amo também

quinta-feira, 12 de maio de 2016

espelho

olhar já não 
dói

que os anos provaram 
que os dias não pesam
mais 
que a 
                          memória

sexta-feira, 1 de abril de 2016

praia

e como se a minha visão estivesse
obstruída
eu de repente via tudo
o mundo a me perguntar de três em três segundos
coca-guaraviton-canga-bronzeador?
mas o que eu queria mesmo não estava no cardápio
e foi tentando ver o mar
entre as araras de biquíni
de infinitos tons e cores
que entendi o horizonte
perfeitamente reto
estranhamente torto
como a vida

quinta-feira, 31 de março de 2016

a gente

de todas essas banalidades
só penso em chegar em casa
depois de um dia de chuva
tomar um banho quentinho
e ter você do meu lado
pra ver qualquer desses filmes
batidos da nossa estante
comendo pipoca e sonhando
com a única cena que importa

terça-feira, 15 de março de 2016

telescópio

espero que depois desse banho quente de realidade
eu possa mudar o rumo errado que inventei de tomar
e endireitar minha postura de velha de 20 e poucos anos
possa me debruçar na janela dos teus sonhos
antes de os matar em mim mesma
espero que agora nesse dia quente e frio
de alguma forma eu sinta a sua falta 
e seja capaz de calcular apenas olhando pro sol
quantos mil anos
ainda temos de vida

segunda-feira, 14 de março de 2016

segunda-feira, 7 de março de 2016

o que fica

Meu avô que dizia, sempre disse, essa história de não desistir, de insistir nas pessoas. Ele sentado na poltrona cor de chumbo da sala, vendo seus filmes compenetrado, imerso em seu mundo até alguém passar. E quase sempre esse alguém era eu, criança que corre e que olha pro avô, como que buscando em seus olhos o mundo. Ele sorria e me punha em seu colo, me olhava nos olhos, aqueles olhos fundos de quem não dorme, pra talvez não perder um minuto de vida.

Ele descansava sobre mim aquele olhar profundo e me fazia umas perguntas que eu não sabia responder, nem antes nem agora, muito menos agora. Em seu colo eu via que o mundo era maior que hoje, talvez mais colorido, na TV um filme, a gente olhando por um tempo juntos, então eu cansava, vô, quero descer, ah, fica mais um pouquinho, e aí eu ficava, atendendo a seu pedido mágico.

Ele sempre me pedia pra ficar e, depois, mais crescida, pra fazer dos meus sonhos uma semente: regá-la todos os dias até ter raízes, pra depois colher os frutos e os repartir, sem apego, como quem sabe que nada é só de quem plantou – ao contrário, é de quem passar e pedir, e então você dá. Regue e doe seus sonhos, e o principal, você vai ver, esteja atenta, não desista de quem você sente, de algum modo sente que pode voltar.

E então chegou a tarde estranha de chuva, quando bati a porta tão triste, cada gota no vidro uma lágrima, eu só querendo sumir por uns dias, meses e anos, e quando me preparava para subir as escadas, continuar chorando entre meus travesseiros, o vô me olhou da mesma poltrona de sempre e me disse, calma, hoje vai doer, mas vai passar. E de um modo sutil me explicou, as pessoas são assim mesmo, elas erram porque se afogam, se afogam nas próprias angústias, nas próprias mágoas, mas não porque sejam más  e, sim, você deve continuar, mesmo doendo, sempre insistir nas pessoas. 

Eu me deitei no carpete da sala, a chuva lá fora borrando o vidro, desenhando um caminho torto que aos poucos se endireitava, o vô sentado me acariciando os cabelos, a TV muda, um filme mudo e eu ali, mais muda que qualquer silêncio. 

No dia seguinte acordei no meu quarto, mas como?, e o vô? O vô já não estava mais lá, o vô não está mais aqui, meu pai disse. Mas, pai?, e ele me olhou profundamente, o vô se foi, filha, faz duas semanas.

E de repente já não havia palavra, não havia seu colo ou seus olhos quando me afoguei num silêncio com gosto de chuva, cada lágrima uma gota me arrastando no vidro, percorrendo um caminho torto e doído mas que aos poucos se endireitava (...)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

prece

na hora da despedida
a gente não sabe ser
pra onde jogar os braços
nem o que vai dizer

na hora de dar adeus
a quem a gente mais ama
explode um silêncio na alma
mas é uma calma que engana

só rezo que olhes por eles
daí de onde estás neste céu
que sejas paz nas manhãs de medo
e luz nas noites de breu

domingo, 21 de fevereiro de 2016

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

via láctea

a gente se distancia
quando não há
espaço comum
quando o tempo
de um
é ontem sempre
a gente se afasta e se perde
porque também perde
a referência
de infinito

domingo, 14 de fevereiro de 2016

medidas

a minha angústia
é diretamente proporcional
à minha incapacidade de ver
quantos
pas
    sos
nos
separam
do
fu  tu     ro

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

dez pras quatro

eu sempre soube que milagres
só podem ser depois das onze
estava certa
e agora sei
que o horizonte
faz sentido

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

folia

por mim
eu usava esses dias
de sol e de sonhos
pra tentar entender
de quantos raios a gente é feito
                      até vir a chuva]
de quantos medos a gente precisa
para cruzar a ponte
que nos atravessa

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

delta-t

não pode haver momento melhor para escrever
do que agora
quando o sol já brilha de tantas maneiras
e atravessa tantas frestas
que a gente se enxerga de olhos fechados
no espelho das horas
que eu conto os segundos
de cada minuto
para caber no in-ter-va-lo
do seu
abraço

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

túnel

a gente nunca sabe de quantos vazios é feito
mas depois que escurece
e a noite esfria
dá até pra desconfiar

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

contra as nuvens

o buraco quando se abre
dentro
parece o fim
parece a noite de tão escuro
mas veja bem
de repente é possível ver
até o pó
dançando contra a luz
até o vão
pedindo para abrir
novos espaços
entre o que 
agora
já são dois

lua nova

fez frio e você já sabia 
de cor e salteado
onde encontrar a coberta vermelha
que é a minha preferida
porque aquece até mesmo as memórias
de um tempo que a gente não teve

a noite era feita de estrelas
e era como se eu visse
teus olhos com a mesma espessura
de novo com a mesma esperança
de voltar a ser quem se era
bem antes de qualquer inverno

domingo, 17 de janeiro de 2016

rampa

vejo o mundo torto
as cores se misturam
o azul caiu na terra 
e agora é quase um rosa
assim meio seco
como a chuva que eu 
me esqueci de molhar

a água de ontem 
eu bebi hoje cedo
e agora tenho sede

de mar 
            e arco-íris

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

dilema

(o quanto 
a gente pode ser do que não é
o quanto a gente cabe onde não há
espaço para estar nem mesmo sem
a parte que nos faz parte de nós)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

aquarela

nesses tempos tão cheios
de pôr do sol
só agradeço a quem 
me emprestou a luz

e me fez olhar 
com outros olhos
pro mesmo mar

sábado, 26 de dezembro de 2015

pós-guerra

você poderia ter me dito do que gostava
ter me ensinado a cortar esses gravetos
com que teceu por anos as próprias manhãs
ou então me dado um par de luvas
com que lutou sem que a gente soubesse
por quem estávamos morrendo naquela noite
de nuvens e trovoadas contado 
as histórias que eu e a irmã
sempre tão perguntadeira queríamos ouvir
para sonhar (ou viver) quando lá fora não fosse escuro

você que sabia amar sem duvidar do amor
dessas coisas que eu já não sei nem quero
poderia ter me contado tantos 
e tantos segredos mas não
preferiu nos deixar enquanto nos defendia do
mundo que já nem posso entender por que chamamos
mundo preferiu mesmo sabendo que não e a
gente tentando não saber mas sabendo que
para casos como o nosso não existe (por
que não existe?) qualquer defesa

domingo, 13 de dezembro de 2015

pôr do sol

[já pensei se é o mundo eu que sei
já pensei despensei
já fui e voltei
já estive fiquei
por enquanto
já você numa tarde qualquer
já eu sozinha no mar
a gente sendo quem não
e esperando 
já a gente
metade 
de um todo que parte
e que cola depois
não agora 
já sonhei 
nós dois e todo o universo 
nós dois sem ninguém do universo 
nós dois universos
e espero que sim 
espero que a gente só siga
e então de repente que a gente 
só viva
e o tempo que é 
nunca 
se esqueça do fim]

terça-feira, 17 de novembro de 2015

vitrais

acordo uns dias mais nublada que outros. como lá fora, que também tem dessas nuances. tudo é nuance, a vida gira. e é preciso entender que se colorir ao longo dela – e dos dias – é arte que não para. tomo meu café sem pressa, olho através do vidro seco as pessoas que passam correndo atrás dos próprios sonhos. mas é impossível não notar o cansaço nas pernas. a dor de não saber a direção, a precisão dos passos, a dobra da esquina. de todo modo, elas caminham. e me inspiram a seguir também. volto ao café, retorno pra dentro. me olho nos olhos. 

porque a cor desse dia quem escolhe sou eu.

sábado, 24 de outubro de 2015

de volta ao futuro

de tarde a gente só queria se embalar, cada um numa das redes coloridas que se equilibravam sem saber no quintal da vó e do vô. e a gente chegava pra causar rebuliço. testar as forças. esgarçar o tecido com o peso de nossas asas. denunciar os remendos com a impertinência de nossos sonhos. impossível tentar medir aquele peso de novo. que desafiava as vigas. a resistência do vento. a mãe e o pai a nos pedir que descêssemos, vem, já é hora de ir embora. um peso que não nos segurava. ao contrário: nos convidava a seguir no balanço livre, o cabelo indo e vindo numa dança louca e sem ritmo. a infância pedindo a nós que apenas fôssemos, e que fizéssemos de nossos pés molas mais potentes. o sorriso da alegria singela servindo de alavanca. as asas que assumíamos por um minuto servindo de esperança. que hoje eu sinto. leve.

domingo, 18 de outubro de 2015

s.e.r

felicidade é buscar
estar buscando
não parar nunca
é tropeçar num sorriso aqui, numa gentileza acolá, numa palavra que de tão plena nos escreve

ser feliz é escolher a metade da gente que sorri mesmo quando chove na hora errada. a metade que verá o arco-íris, que sonhará com as estrelas que ainda não existem, que pintará o céu de todas as cores, misturando-as bem até fazer azul

ser feliz é escolher a metade certa
aquela que perdoa. que enxerga. que encontra

a única que, entre tantos cacos, nos (re)faz inteiros

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

alto mar

para escrever é preciso não saber. não saber por onde seguir, nem com quantas letras construir o próprio barco. 

é preciso não saber se lá fora tem sol ou chuva ou tempestade, ou se os pingos na janela no fundo apontam algum caminho. 

para escrever é preciso não perguntar – só deixar que o silêncio responda o que ainda não é. 

é preciso não precisar, deixar-se perder na primeira esquina, para então se achar – e achar isso mágico. 

escrever é largar a própria mão, experimentar o-silêncio-da-chuva-que-não-cai-antes-das-onze/o-medo-de-não-saber-que-horas-são/e-ficar-no-escuro-até-quem-sabe-amanhã-à-tarde/ mas ainda assim dormir com as portas abertas – e os olhos fechados. 

escrever é pegar no lápis e ir seguindo, como a primeira vez que a gente andou de bicicleta. 

como a primeira vez que a gente caiu, e a única certeza era o chão. 

mas, de algum modo estranho, também o céu

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

escultura

tentar dizer é como um esforço físico. exige mais dos braços e das pernas que das palavras em si. é como mergulhar de cabeça sem saber nadar. requer cuidado para extrair de dentro a letra que sobreviverá fora. encontrar a palavra exata. a mais livre

tentar dizer quase sempre dói. quase sempre cega. emudece

mas também pode ser simples como sentir
sentir-sofrer-sentir
e ir dando forma

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

prescrição

o que fazer com seus fantasmas?
estou certa de que o melhor
é tomar logo o primeiro susto
se jogar na frente do medo
pra talvez chegar antes dele

terça-feira, 18 de agosto de 2015

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

dos delírios

quando bate a dúvida insana
se devo fazer ou não
seguir ou ficar
ser cabeça ou coração
me surge a resposta tão livre e franca
e com tamanha leveza
que me parece mais louco ainda
não ter
certeza