quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

aquarela

nesses tempos tão cheios
de pôr do sol
só agradeço a quem 
me emprestou a luz

e me fez olhar 
com outros olhos
pro mesmo mar

sábado, 26 de dezembro de 2015

pós-guerra

você poderia ter me dito do que gostava
ter me ensinado a cortar esses gravetos
com que teceu por anos as próprias manhãs
ou então me dado um par de luvas
com que lutou sem que a gente soubesse
por quem estávamos morrendo naquela noite
de nuvens e trovoadas contado 
as histórias que eu e a irmã
sempre tão perguntadeira queríamos ouvir
para sonhar (ou viver) quando lá fora não fosse escuro

você que sabia amar sem duvidar do amor
dessas coisas que eu já não sei nem quero
poderia ter me contado tantos 
e tantos segredos mas não
preferiu nos deixar enquanto nos defendia do
mundo que já nem posso entender por que chamamos
mundo preferiu mesmo sabendo que não e a
gente tentando não saber mas sabendo que
para casos como o nosso não existe (por
que não existe?) qualquer defesa

domingo, 13 de dezembro de 2015

pôr do sol

[já pensei se é o mundo eu que sei
já pensei despensei
já fui e voltei
já estive fiquei
por enquanto
já você numa tarde qualquer
já eu sozinha no mar
a gente sendo quem não
e esperando 
já a gente
metade 
de um todo que parte
e que cola depois
não agora 
já sonhei 
nós dois e todo o universo 
nós dois sem ninguém do universo 
nós dois universos
e espero que sim 
espero que a gente só siga
e então de repente que a gente 
só viva
e o tempo que é 
nunca 
se esqueça do fim]

terça-feira, 17 de novembro de 2015

vitrais

acordo uns dias mais nublada que outros. como lá fora, que também tem dessas nuances. tudo é nuance, a vida gira. e é preciso entender que se colorir ao longo dela – e dos dias – é arte que não para. tomo meu café sem pressa, olho através do vidro seco as pessoas que passam correndo atrás dos próprios sonhos. mas é impossível não notar o cansaço nas pernas. a dor de não saber a direção, a precisão dos passos, a dobra da esquina. de todo modo, elas caminham. e me inspiram a seguir também. volto ao café, retorno pra dentro. me olho nos olhos. 

porque a cor desse dia quem escolhe sou eu.

sábado, 24 de outubro de 2015

de volta ao futuro

de tarde a gente só queria se embalar, cada um numa das redes coloridas que se equilibravam sem saber no quintal da vó e do vô. e a gente chegava pra causar rebuliço. testar as forças. esgarçar o tecido com o peso de nossas asas. denunciar os remendos com a impertinência de nossos sonhos. impossível tentar medir aquele peso de novo. que desafiava as vigas. a resistência do vento. a mãe e o pai a nos pedir que descêssemos, vem, já é hora de ir embora. um peso que não nos segurava. ao contrário: nos convidava a seguir no balanço livre, o cabelo indo e vindo numa dança louca e sem ritmo. a infância pedindo a nós que apenas fôssemos, e que fizéssemos de nossos pés molas mais potentes. o sorriso da alegria singela servindo de alavanca. as asas que assumíamos por um minuto servindo de esperança. que hoje eu sinto. leve.

domingo, 18 de outubro de 2015

s.e.r

felicidade é buscar
estar buscando
não parar nunca
é tropeçar num sorriso aqui, numa gentileza acolá, numa palavra que de tão plena nos escreve

ser feliz é escolher a metade da gente que sorri mesmo quando chove na hora errada. a metade que verá o arco-íris, que sonhará com as estrelas que ainda não existem, que pintará o céu de todas as cores, misturando-as bem até fazer azul

ser feliz é escolher a metade certa
aquela que perdoa. que enxerga. que encontra

a única que, entre tantos cacos, nos (re)faz inteiros

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

alto mar

para escrever é preciso não saber. não saber por onde seguir, nem com quantas letras construir o próprio barco. 

é preciso não saber se lá fora tem sol ou chuva ou tempestade, ou se os pingos na janela no fundo apontam algum caminho. 

para escrever é preciso não perguntar – só deixar que o silêncio responda o que ainda não é. 

é preciso não precisar, deixar-se perder na primeira esquina, para então se achar – e achar isso mágico. 

escrever é largar a própria mão, experimentar o-silêncio-da-chuva-que-não-cai-antes-das-onze/o-medo-de-não-saber-que-horas-são/e-ficar-no-escuro-até-quem-sabe-amanhã-à-tarde/ mas ainda assim dormir com as portas abertas – e os olhos fechados. 

escrever é pegar no lápis e ir seguindo, como a primeira vez que a gente andou de bicicleta. 

como a primeira vez que a gente caiu, e a única certeza era o chão. 

mas, de algum modo estranho, também o céu

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

escultura

tentar dizer é como um esforço físico. exige mais dos braços e das pernas que das palavras em si. é como mergulhar de cabeça sem saber nadar. requer cuidado para extrair de dentro a letra que sobreviverá fora. encontrar a palavra exata. a mais livre

tentar dizer quase sempre dói. quase sempre cega. emudece

mas também pode ser simples como sentir
sentir-sofrer-sentir
e ir dando forma

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

prescrição

o que fazer com seus fantasmas?
estou certa de que o melhor
é tomar logo o primeiro susto
se jogar na frente do medo
pra talvez chegar antes dele

terça-feira, 18 de agosto de 2015

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

dos delírios

quando bate a dúvida insana
se devo fazer ou não
seguir ou ficar
ser cabeça ou coração
me surge a resposta tão livre e franca
e com tamanha leveza
que me parece mais louco ainda
não ter
certeza

terça-feira, 4 de agosto de 2015

das coragens que aprendo

hoje dou um passo
pois então caminho

que me parece único meio de mover
a mim e ao mundo
único meio de sair de onde estivemos
juntos
para chegar já não importa
quando

nem que seja
aqui do lado
nem que seja
dentro
ou para
sempre

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

viaduto

me finjo de morta enquanto vivo
porque talvez seja mais digno
que atravessar essa
ponte
estreita
sem medo ou coragem de olhar
pros lados

domingo, 19 de julho de 2015

espaço

onde me
refaço
passo
de aço
que temo-atravesso
erro
o tempo
compasso
que espero
(   )
quero
ser
tudo e só
de novo
enquanto você estiver
por perto

sexta-feira, 17 de julho de 2015

interrogatório

eu só esperava ter um pouco mais de certeza
quando você me perguntasse coisas tão óbvias
como
a cor do céu quando a gente se abraça
a cor dos seus olhos no escuro do quarto
a cor da gente vendo o mundo da janela e sonhando com o dia que nasce arco-íris
mas por algum motivo que ainda não sei
cá estou eu
branca e muda
diante do espelho

quarta-feira, 8 de julho de 2015

geometria

um abraço pode ser todas as pontas
que se unem
numa casa cheinha de móveis
dourados pelo sol da tarde
que encontra no vão a passagem exata
e os embrulha
mas pode ser também dois braços
que pendem
tentando agarrar o sopro
tocar o sorriso que já não sente
nem cabe na sala de estar vazia
e escura

terça-feira, 7 de julho de 2015

andarilho

eu ando na rua
e é como se cavasse
u              o
  m         c
     b     a
       u r

cada passo
me en-
         -go-
              -le
eu e a terra

cada passo é d i  s   t    â     n      c       i        a

do horizonte
abismo
espera

escrevo

que é quando enterro
tudo isso
numa eterna
f            c            ã
      i            ç            o

esquina

o menino do cadarço frouxo
me olhou nos olhos
          como quem diz
amarra pra mim?

e eu que sou feita de laços
percebi que há nós que se
          desfazem
num sorriso

segunda-feira, 22 de junho de 2015

novo outono

Com o tempo a gente aprende tanta coisa, depois de tanto conselho, tanto silêncio, a gente aprende muito mais que as estações do ano, que o preço do aluguel, que o cheiro das margaridas. A gente aprende a filtrar os desconselhos, a aceitar os inimigos, a abraçar as dores. Depois de muitos invernos a gente entende que florir só depende de nós, e que a chegada do verão requer, sim, paciência. Com o tempo a gente percebe que de nada valeu guardar tanta roupa, que de nada valeu guardar tanta mágoa. Que amanhã pode ser um dia melhor que hoje, mas também que hoje pode ser melhor que semana passada. A gente pode demorar, porque aprender leva tempo, mas o que importa é que a gente vai entender, muitas vezes lá pelo fim da estrada, que o valor das coisas depende mais da leveza do olhar que do peso das moedas. A gente vai entender que nem todo sorriso sorri, que nem toda lágrima chora, que o que a gente vê nem sempre é. Tanta coisa será dita, sim, mas só escute mesmo o que falar à sua alma. Muita gente vai julgar o que você é, o que deveria ter sido, seus sonhos, seus planos, seu emprego, seu desemprego e sua falta de sonhos e planos. Muita gente vai lhe dizer que o caminho poderia ser outro, que você deveria ser outro, ter sido outra coisa mais entendível por todos, como se parecer fizesse mais sentido que tentar encontrar aquela chave de ouro que em algum planeta estranho ousaram chamar felicidade. E às voltas com tantos dizeres, pesares pesados sobre o que devemos, pode ser que a gente perca um tempinho decifrando esse mundo-quebra-cabeça de oitocentas mil peças. Mas no fim  e isso requer mais tempo que espaço  vamos entender que tudo é mais simples que um dia pensamos, que viver faz todo o sentido, que amar dá sentido a tudo. Porque no fim  mas isso exige parar um segundo  vamos contemplar tudo se encaixando como se já tivesse sido escrito, as linhas tortas de Alguém que nos escreve em seu Livro.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

dez oitavas

eu sempre quero ficar, e voltar, e te olhar nos olhos, castanhos, estrelas de um ontem na praia, ondas de um sempre no mar
te dizer, vem cá, esquece o que passou, só lembra do que virá
mas antes preciso ir ali, é perto, e ficar por alguns minutos, tento, olhando pras estrelas dos teus olhos, cegos, só pra ter certeza de que nem tudo passa, que nem tudo é onda, que nem tudo... ah!