quinta-feira, 30 de março de 2017

vão

você diz que não dá pra saber de quantos nãos é feito um sim. de quantas subidas uma chegada. de quantas mortes uma vida. mas de repente eu sei bem onde dói quando a chuva cai e não há um teto. a gente sabe bem quando sente a chuva na pele. quando ela nos seca por dentro. quando a morte toma forma – e os nãos caem do alto. de repente a gente sabe tudo: 
porque o mundo é aqui dentro

sábado, 18 de março de 2017

2.8

com as palavras, é como se tivesse dito tudo. já as usei de tantos modos, desperdicei quantos sentidos, arremessei-as com tal força pra afogar num rio fundo. pois que não digo mais com elas:: agora é gesto:: no escuro apenas olho pro infinito – é o que diria em mil palavras. canto no silêncio dos meus medos. grito como nunca tão serena. me encolho de uma tal felicidade. sem dizer um ai sequer, escrevo o livro dos meus dias
muda
então inteira

sábado, 25 de fevereiro de 2017

a liberdade de quem fica

ficar é sempre um peso. vai esgarçando por dentro e a gente sem saber como se manter sem o que foi. vai arrancando a pele, e os sentidos, e os ossos. deixa só o interior quase uma espuma. o interior do que somos e não somos. o interior feito de aço - e isopor
pois encarando o interior enxergo o mundo
olho em seus olhos e vejo todas as impossibilidades. enxergo os limites me encurtando as asas e me ponho a voar no parapeito da janela - não tenho medo de cair de poucos metros
do interior eu pego força pra limpar os vidros, pra ver um dia mais iluminado. da dor que carrego porque fico faço um castelinho com mil nomes - e o primeiro é coragem. da coragem que não tenho faço um arco-íris e me embalo no vermelho 
voo. voo. voo. carrego as asas na mochila do invisível. carrego os sonhos que esquecemos na esquina
e te espero, te espero, te espero
em algum mundo na próxima estação

sábado, 18 de fevereiro de 2017

rascunho

De noite só desejou que todos os mundos coubessem nele. O travesseiro, fazia de extensão do abraço que não veio. Mergulhava a cabeça no infinito das espumas querendo engasgar o choro. Soluço. Vício esse, de chorar enterrado. De chorar e ficar pensando que poderia estar rindo. De acender a luz só pra ficar contando os pontinhos pretos do teto. Estrelas, em algum mundo. Sonhos que poderia ter, e viver, não fosse a rachadura em que se transformavam no infinito (   )

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017